segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Corso

As tuas velas negras ensombram esta enseada estéril de vida. Pilhas o vazio, assaltas um Nada cadáver, um povoado de ninguém. A bonança oculta o teu rumo, em bolina ardilosa e intentos de negrume vil. Um cerco invisível barrica-me em trincheiras de paranóia. Amotina-se o despovoado lá fora, num crescente rufo de silêncio. És apenas uma memória, tão frágil, que até uma brisa pode desagregar-te em sedimentos.

sábado, 15 de setembro de 2007

Carência

Aqui permaneço prostrado
De ventre rasgado e entranhas expostas ao Sol
Que me apodrece e me consome
Debica-me com frenesim necrófago
Pune-me sem me matar
Castiga-me sem misericórdias
Diariamente qual Prometeu
Espera-me novo suplício
Expiação dos meus pecados
Pena pelos meus crimes
Carrasco reflexo no espelho
Grão Mestre inquisidor
Carrego nas mãos os traumas
As chagas e úlceras do vício
Pesa-me o Inferno
Queima-me o ar que me alimenta
Dói-me a ausência
Fustiga-me a companhia
Mortifica-me o sonho
Preciso de ti.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Penitência

Noites intermináveis, nas quais percorro léguas e milhas em sobressalto, sobre um colchão encharcado no meu próprio remorso. Já não aprisiono o teu cheiro, nem escravizo o teu toque. Tremo em abstinência de tudo o que tinhas para me dar e arranho os cantos em busca de uma réstia de ti. Tudo o que sobra são fotogramas subliminares, do que foram momentos de certeza e estabilidade. Explode a culpa em mim e solto uivos de luto por estar morto para ti. Pagarei amargamente pelo crime que pratiquei contra ti e a minha penitência será eterna. Só soube culpar quem pecou, esquecendo-me que poderia ser praticante do mesmo pecado. Pesarás na minha consciência e a tua frágil fisionomia, será a carrasca que vagueará imortal no limbo da minha mente. O teu olhar magoado acompanhar-me-á perpétuamente, como um espinho cravado na moralidade, assinalando a minha pobre conduta. Serei assombrado pela tua graça, pela tua bondade, consciente de que foste o melhor que alguma vez me aconteceu.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Resguardo

Mais uma noite solitária, em comunhão com um espírito vazio de paz. Tumulto a cada minuto, desvairo a cada esquina, alienação em cada expressão incolor.
Passeio-me frequentemente naquela praia, buscando regaço no vai e vem da maré. Incubadas como vírus, cada emoção vive adormecida, esperando um canal de escoamento, para se libertar com a fúria dos oprimidos.
Banha-me a areia fria, de gume afiado e sedimentos de aço, rasgando-me a alma, enquanto me massaja os pés em toque de veludo. Suja-me o oceano, conspurcado dos meus ódios e frustrações e dos gritos de todos aqueles que já desesperaram, nesta mesma foz de desalento.
Um ano completo passou e ainda vivo emaranhado nas mesmas redes de descontentamento. Ainda sinto a chaga do punhal cravado profundamente na minha auto-estima, ainda rui em escombros toda a sustentação do meu ser. Aprendi a saborear a dura verdade e o seu amargo travo metálico.
A idade traz-me tranquilidade suficiente, para omitir as minhas inseguranças e desejos secretos. Finalmente compreendi como conter a emoção. Tudo vive dentro de mim, mas simplesmente não interessa, não é relevante. Tudo tem a importância que lhe damos, sem defeito ou exagero.
Continuarei a amar ocultamente, a chorar em silêncio e a desejar secretamente, contudo somente quando a chuva cantar lá fora, camuflando os meus prantos, enquanto busco pela cola que me cimente à vida.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Traição

Não existem locais correctos para se ser infiel, muito menos na própria mente. Pior que tudo, sou infiel comigo mesmo. Violo os meus princípios e convicções por mágoa e afasto quem quer cuidar de mim. À medida que amadureço, mais pesado se torna o castigo pelos erros que vou cometendo, maior o embaraço por constatar tamanhas lacunas, menor o número de almas que conservo perto da minha. Não me dói propriamente a solidão, fere-me mais perder quem me pode fazer acreditar, que há esperança para mim. Como pode alguém depositar fé em mim? Metade carcomido, metade erodente, de expressão taciturna e presente cinzento. Sou uma ilusão de tudo finalizada em nada. Aos poucos e poucos afasto-me, até vislumbrar somente o vazio. Apenas fica o remorso, embalando-me em crescendo, de noite para noite e demasiada teimosia para o admitir. Que pode perder quem está sozinho? A mesma solidão e talvez apostar um pouco e ganhar companhia. Perdi-a por levantar muros de desconfiança e fossos de cobardia. Não existe sensação pior que estar perto de quem só me fez bem e só sentir dor e repulsa da sua parte. Só assim avalio as minhas baixas, como arruinei a minha melhor possibilidade de vencer neste jogo de azar a que chamo vida. Foram-me dadas as melhores cartas, perdi tudo em "bluff" de segunda.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Animal

Ouço-o à minha espera, camuflado de gente, murmurando o meu nome em constante desafio, em subtil ameaça. Aterroriza-me com pegadas pesadas, risadas estridentes e uivos cortantes. A minha pele crispa-se de pavor e despigmenta-se em pânico... Não o vejo, mas sinto o seu hálito pútrido, flagela-me em arrepio um frio de morte. Desligo a luz e a sua presença intensifica-se... Ostenta a imponência dos titãs, submetendo-me a diminuto insecto, rastejando atrapalhadamente em busca da protecção da almofada. Oculto-me o mais que posso, sentindo o seu calor perto de mim, o seu expirar ofegante queima-me de terror. Os meus ossos fazem ricochete uns nos outros, em sinfonia dos cobardes. Acusa-me de todos os meus crimes e agride-me com insultos minuciosamente precisos. Deslavo-me em lágrimas e histerismo. Brado, clamo e imploro que pare, que me abandone de uma vez. Entoo uma prece desesperada para que não passe de um pesadelo, para que quando acordar seja dia e a luz exorcize o meu medo. Torna-se mais forte com os meus actos pusilânimes, alimentado-se do meu horror. Possui-me lentamente, até me esquecer de mim. Olho-me ao espelho e não sou eu.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Audácia

Mais um cigarro não me vai matar. Sobrevivi a desilusões, quedas de governos, desmoronamento de países e nascimento de novos, a sexo arrojado e no máximo com cotovelos esfolados e dores no pescoço. Sou demasiado jovem para me preocupar com a saúde e demasiado velho para escapar incólume. O risco faz-me dar aquele passo abusivo em direcção ao precipício e tudo para descobrir que não me conheço. Acabo por me revelar um tresloucado irresponsável, motivado por aquela afluência de emoções, que brotam em jorro abundante de geyser. É tudo adrenalina excretada como bomba relógio ansiosa que ultrapasse o limite. O que hoje é uma sensação extrema e narcótica, poderá ser amanhã colapso ou enfarte. Não viro a cara ao perigo, não dou a outra face à ameaça física, não me rendo à injustiça. Aceito o amor e abraço o ódio, na sua igual intensidade; em igual proporção fazem-me melhor. Ambiciono companhia, porém alguns dos meus melhores momentos foram de mãos dadas com a solidão. Quando não tinha mais ninguém, nunca me abandonou. Quero invadir o mundo com melodias melancólicas, forçá-lo a compreendê-las e sorrir. Quero fixar os olhos em voyerismo obsessivo na tua face e esboçar um sorriso, no meu leito de morte. E aí sim desistir, pois já nada restará, para me prender aqui.

Camaradagem

Amigos. Caindo no risco do arcaísmo popular, contam-se pelos dedos. Abençoado aquele que tem suficientes para ocupar os dedos de uma mão. De todas as possíveis interpretações, aquela que melhor me define um amigo será "aquele que me quer bem". Vou mais longe, "aquele que me quer acima do seu próprio bem". Pelo menos é assim que eticamente classifico o meu comportamento perante os poucos a quem chamo de "amigos". Tenho ideias muito definidas sobre a amizade e sinto o peso da responsabilidade de tal compromisso. Para mim o único elemento que separa um amigo da minha família, é somente o código genético. Todavia os meus critérios de selecção são exigentes e a avaliação é contínua. A um amigo só não perdoo a traição. Com isto não quero dizer que não seja capaz de trair, apenas nunca trairia um amigo.
Reconheço que não sou das pessoas de mais fácil lide, tenho bastantes e notórios defeitos, mas ultrapassados certos atritos, têm a minha entrega total. Porém existe sempre a outra "face da moeda", quem me desilude tem a minha aversão eterna. Posso até ocultar ódio, cólera, raiva, aversão... Quem me magoa após tê-lo aproximado de mim, terá a proporcional retribuição. Fria, dissimulada e oportuna. Metódica e feminina.
Cai-se demasiado no erro de chamar "amigo", a qualquer indivíduo que partilhe algumas preferências ou actividades. Amigos definem-se nas situações limite. Sem pedidos de ajuda, sem lamentações, sem explicações. Ninguém sabe como ou porquê, simplesmente estão presentes ou ausentes, com os "timings" perfeitos. Não é só inundar-nos de conselhos, minimizar a importância das situações ou concordar com tudo
o que dizemos. Muitas vezes é saber ouvir em silêncio, chorar connosco ou até repreender-nos fisicamente.
Não existe um manual para o comportamento exemplar de um amigo, nem assim é suposto,
já que todos somos portadores de imperfeições. Penso que um bom indicador de amizade, será ambicionarmos para um amigo, tudo o que ambicionamos para nós de forma activa. Não me imagino a crescer e não ter quem cresça comigo.

sábado, 14 de julho de 2007

Exorcismo

A escrita permite-me enfrentar o mundo, pelejar com espírito audaz e irredutível. Quando escrevo tudo se torna descomplicado, despojo-me de "máscaras", por momentos sou o verdadeiro "eu". Lá fora envergo armaduras na emoção, privando-me de mim e dos outros. O mundo exterior é uma arena e nós os seus gladiadores, resguardando somente a nossa perpetuação. Ao escrever relembro-me por momentos das palavras de esperança que poderia proferir, do sorriso que poderia esboçar, do carinho que poderia manifestar e talvez tornar um lapso de segundo, mais fácil de suportar a um transeunte qualquer.
Nos meus textos, sou o homem que um dia projectei, já que no dia a dia partilho da essência daqueles que tanto abomino. Já me defendo sem saber porquê ou de quem. É um mecanismo, reflexo condicionado. Bebi tanta dor, minha e alheia, que até a alegria sabe-me mal. Estranho-a na sua sistemática raridade. Nem me dói a sua ausência. Pelo menos aqui peso cuidadosamente a importância de cada emoção e valorizo cada miligrama. Lembro-me de todos que amo e dos poucos que odeio. Lavo o espírito e peço perdão a todos, por não amá-los suficientemente ou por odiá-los por egoísmo, já que temo que sem ódio, nada me ligue a eles e acabe por perdê-los. Espero apenas ter marcado alguém o suficiente, para o meu nome não cair no esquecimento.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Absolutismo Ideológico

Este não é um blog politicamente correcto. Também não é uma democracia. É o extravasamento da minha voz interior, com todos os seus impropérios, senilidades e egocentrismos. Não procuro palavras de conforto, reconhecimentos, "palmadinhas" nas costas e como tal dispenso toda e qualquer crítica. Obviamente sendo um blog público, é livre a leitura a quem achar digno e meritório de consumo do seu tempo. Alguns conteúdos poderão assemelhar-se à realidade, todavia a sua grossa maioria, embora intensamente experienciada no labirinto da minha mente, não transcende a mera ficção. O seu propósito é acima de tudo auto-gratificante. Lamento se desiludo os juízes das emoções alheias ou psicólogos de infantário.