sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Resguardo

Mais uma noite solitária, em comunhão com um espírito vazio de paz. Tumulto a cada minuto, desvairo a cada esquina, alienação em cada expressão incolor.
Passeio-me frequentemente naquela praia, buscando regaço no vai e vem da maré. Incubadas como vírus, cada emoção vive adormecida, esperando um canal de escoamento, para se libertar com a fúria dos oprimidos.
Banha-me a areia fria, de gume afiado e sedimentos de aço, rasgando-me a alma, enquanto me massaja os pés em toque de veludo. Suja-me o oceano, conspurcado dos meus ódios e frustrações e dos gritos de todos aqueles que já desesperaram, nesta mesma foz de desalento.
Um ano completo passou e ainda vivo emaranhado nas mesmas redes de descontentamento. Ainda sinto a chaga do punhal cravado profundamente na minha auto-estima, ainda rui em escombros toda a sustentação do meu ser. Aprendi a saborear a dura verdade e o seu amargo travo metálico.
A idade traz-me tranquilidade suficiente, para omitir as minhas inseguranças e desejos secretos. Finalmente compreendi como conter a emoção. Tudo vive dentro de mim, mas simplesmente não interessa, não é relevante. Tudo tem a importância que lhe damos, sem defeito ou exagero.
Continuarei a amar ocultamente, a chorar em silêncio e a desejar secretamente, contudo somente quando a chuva cantar lá fora, camuflando os meus prantos, enquanto busco pela cola que me cimente à vida.

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